“... o ato de recordar incita à reflexão permanente do ser na História.”
(Saul Sosnowski)
Nem bem o século XX despertou, o mundo já começou a sofrer as
consequências do sistema capitalista industrial. A acirrada disputa econômica
entre os países europeus, deu origem a Primeira Guerra, que de européia
passou a ser mundial, devido a sua repercussão.
O Brasil foi um dos países que sofreu as conseqüências diretas e indiretas
do conflito. Dependente da importação de vários produtos europeus e
americanos – dentre eles a farinha de trigo – e passando por um período de
crise financeira (inflação, crescente dívida externa, desvalorização da moeda...)
o brasileiro sentiu no bolso e na mesa as mazelas de um conflito mundial.
Todos os dias filas se formavam em frente aos estabelecimentos comerciais,
que distribuíam o mínimo possível, a fim de atender a todos os seus clientes.
É em meio a esse cenário que, no dia 11 de Fevereiro de 1915, surgiu a União Cooperativa dos Proprietários de Padarias de São Paulo. Formada por panificadores de várias nacionalidades, tinha como objetivo a união de todos os proprietários de padaria da Capital a fim de que o setor viesse a progredir, superando as dificuldades. Todos sabiam que o produto que vendiam em seus estabelecimentos era de primeira necessidade para a vida, e que por isso era necessária a união e a cooperação entre todos os panificadores. A primeira reunião teve como presidente o Sr. Callogera Callia, panificador de prestígio dentro da cidade, proprietário da Grande Padaria e Confeitaria Siciliana, que juntamente com outros quarenta e seis proprietários de padarias, encontraram- se no Salão Cosmopolita para decidir o futuro do setor.
O Estatuto Social foi aprovado na primeira Assembléia Geral, ocorrida no dia
9 de Março, onde além de discutirem os assuntos pertinentes a estruturação
da entidade também levantou os problemas que mais incomodavam os
panificadores naquele momento: cadastro de fregueses (como forma de evitar
os maus pagadores); cadastro de empregados (padeiros); a questão das
cocheiras junto a Diretoria de Higiene; o problema de importação de farinha de
trigo (causado pela Primeira Guerra Mundial), entre outros...
A União dos Proprietários de Padarias passou por momentos difíceis, que levaram a sua desativação por alguns períodos, intercalados por algumas tentativas de reestruturação sem sucesso. A crise econômica do setor, causada pela dificuldade de produção do pão em virtude da guerra, ocupava demais o tempo e os pensamentos do panificador, levando-o ao esquecimento da entidade.
Foi no ano de 1928 que a União foi reativada com força total. Várias reformas
foram propostas pelos diretores, dentre elas a mudança da denominação da
entidade para Associação dos Proprietários de Padarias de São Paulo. Mais
tranqüilos frente à economia brasileira, os panificadores voltaram a discutir
seus problemas setoriais: lei de descanso semanal, preço do pão, autorização
para condução de carrinhos de entrega, entre outros...
O ano de 1935 é marcado pelo amadurecimento da Associação e a conscientização da sua função frente à classe panificadora. Pensando numa maior integração entre os proprietários de padarias e a Associação, a entidade resolveu criar o seu próprio órgão de informação para o setor – Revista “Panificadora Paulista”. A publicação aconteceria mensalmente e além de informações do cotidiano panaderil, ficaria encarregada de informar os panificadores sobre todas as decisões e atos tomados não só pela Associação de São Paulo, mas também do Brasil.
Ainda no ano de 1935, mais precisamente no dia 6 de Julho, os panificadores
de São Paulo ganharam como importante aliado na defesa dos interesses
da classe, o Sindicato dos Industriais de Panificação e Confeitaria de São
Paulo. Tendo como primeiro presidente o Sr. Paschoal Tanzillo, o Sindicato
contou com a perseverança e determinação do Sr. Benjamim Ribeiro, que na
qualidade de presidente da Associação, não mediu esforços para concretizar o
sonho de uma entidade sindical para o setor.
Com a fundação do Sindicato, não só os panificadores da Capital, mas
também os do interior passaram a contar com um serviço de apoio frente
aos problemas enfrentados pelo setor. Ao longo dos anos, os trabalhos em
conjunto da Associação e do Sindicato trouxeram muitas conquistas para o
setor de panificação: Cooperativa de Seguros, aquisição da Sede da rua Boa
Vista, Jantar dos Panificadores, Fipan, Ceripan, Festa da Primavera, Edifício
Frederico Maia, Fundipan, entre outros, retratando assim o exemplo da união
como forma de ultrapassar as barreiras, que impedem o sucesso de diversos
projetos.
Dessa forma, podemos concluir que a história e a memória do setor de
panificação, através das suas entidades representativas, estão diretamente
ligadas a memória das entidades sindicais e associativas brasileiras, sendo
devidamente merecedora de reconhecimento e respeito pelo seu desempenho
junto a sociedade.