Um mundo chamado Santo Amaro

Estatua polêmica: amado por uns e odiados por outros, o "Velho Borba" resiste, firmemente, como a imagem-símbolo do bairro.
Misto de bairro residencial e comercial, Santo Amaro, tem de tudo.
Inclusive história e uma gente muito boa.
Santo Amaro é um dos maiores e mais populosos bairros da cidade de São Paulo. Atualmente, o antigo município engloba os distritos paulistanos de Santo Amaro, Campo Grande, Campo Belo, parte do distrito do Itaim Bibi, Cidade Ademar, Pedreira, Campo Limpo, Capão Redondo, Vila Andrade, Jardim Ângela, Jardim São Luís, Socorro, Cidade Dutra, Grajaú, Parelheiros e Marsilac, que, segundo a estimativa do IBGE para 2004, totalizavam uma população de aproximadamente 2,1 milhões de habitantes, distribuídos em uma área de 660 quilômetros quadrados, que corresponde a 43% do total da superfície do município de São Paulo.
Sua origem remonta ao século 16, quando era uma aldeia de índios guaianases, chefiada pelo cacique Cayubi. A chegada dos portugueses a São Paulo deu início ao processo de miscigenação na região: em 1560 a índia Terebê, considerada a avó de Santo Amaro, casou com um português. José de Anchieta vindo do povoado de São Paulo de Piratininga, em uma das várias vezes que visitou a aldeia de Jeribatiba percebeu que devido ao número de índios catequizados e colonos instalados na região, era possível constituir ali um povoado, idéia aprovada pelos moradores. Para esse fim foi construída uma capela, em terras da região do Cupecê, onde moravam João Paes e sua esposa Susana Rodrigues, que doaram a imagem de Santo Amaro (imagem até hoje preservada) para a capela "feita de taipa de pilão, não forrada", organizada por Anchieta no ponto mais alto da região, conhecido como Largo da Bola, posteriormente Largo 13 de Maio, que, efetivamente começou o vilarejo. E foram os portugueses também, é claro, os responsáveis pela denominação de Santo Amaro.
Chegam os alemães
No final do Primeiro Reinado, por ocasião do casamento de Dom Pedro I com Dona Amélia de Leuchtenberg, o primeiro grupo de colonos alemães veio se juntar ao povoamento daquela região. Data dessa época de pioneiras o Cemitério da Colônia (alemã), em Parelheiros. No final do 19 e início do século 20, novos grupos de alemães, e também de escandinavos, dirigiram-se à região de Santo Amaro, estabelecendose preferentemente no bairro do Alto da Boa Vista, ao qual deram uma característica própria que persiste até os dias de hoje.
Em 1832 Santo Amara torna-se município, separado de São Paulo, sendo instalado em 7 de abril de 1833. O município abrangia todo o território que se situava ao sul do antigo Córrego da Traição, hoje em dia canalizado e sobre o qual existe a Avenida dos Bandeirantes, estendendo-se até a Serra do Mar. Em 1886 foi inaugurada a linha férrea de São Paulo a Santo Amaro, com a presença do Imperador Dom Pedro 11. Em 1899 foi inaugurada a Santa Casa de Misericórdia de Santo Amara, e em 1924 a igreja Matriz de Santo Amaro (atual Catedral de Santo Amara, pois em 27 de maio de 1989 o Papa João Paulo 1I criou a Diocese de Santo Amara, desmembrando a região da Arquidiocese de São Paulo).
A inauguração do Aeroporto de Congonhas, em 1934, foi uma das razões pelas quais o decreto estadual número 6983, de 22 de fevereiro de 1935, determinou a extinção do município de Santo Amara, incorporando-o ao município de São Paulo. Movimentos emancipacionistas ocorridos nas décadas de 1950 e 1970, contudo, não conseguiram sensibilizar a população para que Santo Amaro fosse novamente elevado à condição de município.
Prioridades urbanisticas

Caflé Cultural: funcionários bem treinados para atender a um público majoritariamente formado por advogados.
Como pólo central na Zona Sul da cidade, teve uma prosperidade constante, com a instalação de diversas indústrias por imigrantes europeus, chegando a responder por 50% do recolhimento de impostos na década de 1970, segundo dados da subprefeitura. A concentração dessas empresas era na região de Jurubatuba, cortada pela avenida das Nações Unidas.
Hoje, a área ocupada pela subprefeitura é menor do que a que formava o município, abrangendo os distritos de Campo Belo, Campo Grande e Santo Amaro. A exemplo de outras regiões de São Paulo, a subprefeitura sofreu esvaziamento das indústrias, atraídas para o interior, e desenvolveu o setor de comércios e serviços, principalmente na Chácara Santo Antônio. Mas a redução territorial, na prática, parece não ter acontecido, visto que Santo Amaro continua concentrando as pessoas da periferia Sul que vão procurar emprego ou estão simplesmente de passagem. A ocupação correta do solo urbano é um dos principais desafios da subprefeitura, que está adotando medidas como a criação de um Centro de Comércio Popular (POP), para atender a essas pessoas que vivem na economia informal.
As ações do Poder Público para melhorar o funcionamento do território da subprefeitura contemplam ainda operação tapa-buracos, poda de árvores, limpeza de bueiros e boca de lobo, intensificação da varrição, reformas de praças e a construção das alças da ponte na Avenida Roberto Marinho, próxima à Avenida Nações Unidas, e do Complexo Viário do Jurubatuba, com duas pontes e duplicação da Avenida Miguel Yunes.
Em contraponto à atmosfera tipicamente popular do centro histórico de Santo Amaro, casas de alto padrão estão encravadas em bairros de luxo como Chácara Flora, Granja Julieta, Jardim Petrópolis e Alto da Boa Vista. Na Chácara Santo Antônio, multinacionais da área de tecnologia ocupam diversas áreas, estimuladas pelo preço mais baixo do que em outros bairras nobres da cidade. As multinacionais impulsionaram a construção de condomínios residenciais e de seis hotéis de porte, como o Transamérica e o Meliá. A Chácara conta também com a Câmara Alemã de Comércio, Câmara Americana de Comércio, três prédios da Universidade Paulista e vai receber instalações da Uniban (Universidade Bandeirante de São Paulo).
Gigante de pedra

Madalena (esq.) e Vera Lúcia, da Santa Madalena: participação constante nos treinamentos promovidos pelo Sindipan.
A história de Santo Amaro encontra-se preservada no Museu de Santo Amara, administrado pelo Cetrasa (Centro de Tradições de Santo Amaro). O museu é repleto de quadras de Júlio Guerra, o artista plástico nascido na região em 1912, e que conta com uma sala só para seus quadras. A cultura local encontra-se preservada ainda no Teatro Paulo Eiró, nome em homenagem ao poeta local de maior projeção. O teatro, inaugurado no final dos anos 50 e em plena atividade, possui em frente um painel também dedicado ao poeta.
A estátua de Borba Gato, implantada na confluência das avenidas Santo Amaro e Adolfo Pinheiro, divide opiniões desde sua inauguração. A começar pela figura controversa dos bandeirantes, tidos como heróis civilizadores por uns e agentes desagregadores da cultura indígena por outras. Também a solução estética adotada pelo artista instiga os debates.
O escultor Júlio Guerra trabalhou seis anos na execução da estátua. Utilizou trilhos de bondes para a montagem da estrutura de concreto, posteriormente revestida de pedras coloridas de basalto e mármore. O resultado é um mosaico tridimensional com dez metros de altura e cerca de 20 toneladas. A tarefa mais árdua foi a colocação da cabeça, que pesa três toneladas. A inauguração do gigante de pedra e concreto integrou os festejos em comemoração do IV Centenário de Santo Amaro em 1963.
Querido por uns, considerado de mau gosto por outros, o velho Borba Gato continua a guardar a entrada de Santo Amara, alheio às críticas. A estátua do bandeirante santamarense, um dos cartões postais mais famosos da cidade, integra o Inventário de Obras de Arte em Logradouros Públicos da Cidade de São Paulo mantido pelo Departamento do Patrimônio Histórico.
Amor ao bairro

Dentro da proposta da multidiversidade do comércio e da ampla oferta de serviços aos moradores e à população flutuante que passa pela região, as padarias sempre tiveram uma participação bastante destacada no bairro. E isso, de há muito tempo. Bem próximo à estátua de Borba Gato e bem ao lado do Fórum de Santo Amaro, por exemplo, está o Caffé Cultural e Padaria Expressa JJJ, da Av. Adolfo Pinheiro, de propriedade de Ricardo Rocha. Ricardo é praticamente um novato do bairro - comprou o estabelecimento há cerca de seis meses -, mas não no negócio: era
proprietário de uma padaria na Zona Norte, e veio atrás das oportunidades do bairro, proporcionadas pela "vizinhança" do prédio público: "Durante a semana, temos um movimento muito grande de advogados, promotores e juizes, que vêm atrás de nosso carro-chefe: o serviço de almoço, com pratos do dia e pratos rápidos de excelente qualidade. Além disso, abastecemos o pessoal dos bancos e escritórios da região com um delicioso café da manhã", conta, satisfeito. Isso, durante os dias úteis, porque, devido ao fato que atende, basicamente, ao público que trabalha na região, a padaria não abre nos finais de semana.
Quem também é bastante forte no serviço de almoço, bem como no serviço de panificação, é a Padaria e Confeitaria Santa Madalena, da Av. Portugal. Ela existe há seis anos e meio e, durante esse período, já se tornou famosa na região graças ao seu café da manhã, ao seu serviço de delivery e, é claro, às delícias que produz, tais como o pão de grãos, o brioche e as bombas de chocolate e os mini-folhados salgados de presunto e queijo branco. Segundo sua proprietária, Vera Lúcia Garbin Fontana, um dos segredos que ajudaram a construir a fama e o sucesso da Santa Madalena é a artesanalidade: "Nossos bolos - como os de castanha-do-pará, laranja, formigueiro e iogurte - são todos fabricados a partes de receitas caseiras e não usam pré-mistura. Isso, realmente, faz a diferença, porque nosso público, formado tanto por moradores de classe média, quanto de trabalhadores do bairro, é muito exigente", destaca. "Por essa razão é que todos aqui participam regularmente dos cursos de aperfeiçoamento do Sindipan. A Vera também faz questão de participar", comenta, com um grande sorriso, Madalena Garbin, sócia e mãe de Vera Lúcia na padaria.
Já a Padaria e Confeitaria Flor da Laguna, da Rua Laguna, uma travessa da João Dias, é uma das decanas do bairro: são 35 anos de tradição e de bons serviços prestados à comunidade santamarense, sendo que, os quatro últimos, sob o comando do português Jaime Jesus Mesquita, seu atual proprietário, que, durante esse período, já empreendeu algumas reformas na casa, para melhor adequá-la aos novos tempos. Para fazer jus à confiança depositada pelos clientes, Jaime conta com a valorosa colaboração de seu atencioso gerente, Miguel de Souza Gama, profundo conhecedor das artes e técnicas da panificação e dos sabores. "Aqui na Laguna, atendemos a um público misto, sendo que, durante a semana, naturalmente são pessoas que trabalham aqui em Santo Amaro. O nosso carro-chefe, sem dúvida alguma, é o pãozinho, sem dúvida, o mais gostoso de Santo Amaro, e que, por isso, atrai consumidores até de outros bairros", afirma convicto Miguel, sem esconder o orgulho e a felicidade que se podem ver, apenas, nos olhos das pessoas que adoram aquilo que fazem.