Provinciana, no bom sentido

A antiga Igreja da Penha, tombada pelo patrimônio histórico: reforma 1986,
evitou a demolição de um dos principais marcos do bairro
O bairro da Penha tem suas raízes ligada diretamente a história de São Paulo. É por seus caminhos que os bandeirantes buscavam indígenas para escravizá-los ou mesmo catequizá-los. Isso, lá pelos idos de 1600. A história nos conta que o bairro foi fundado pelo padre Jacinto Nunes de Siqueira. Por volta de 1660, o licenciado Matheus tinha uma fazenda com igreja e um grande curral. Ao local foi dado o nome de Nossa Senhora da Penha. O crescimento da fazenda veio do dinheiro que o padre deixou à Igreja de Nossa Senhora. Antes disso um grande numero de pessoas deixara em testamento seus bens para a mesma igreja. Logicamente a capela cresceu em beleza e tamanho, assim como o pequeno povoado que estava em seu entorno.
A história da Penha esta marcada ainda por uma lenda. Conta-se que um viajante francês que percorria o Brasil estava em São Paulo. Uma noite pernoitou lá pelos lados de onde hoje é o bairro. Amarrada ao cavalo estava uma imagem de Nossa Senhora. Ele acordou no outro dia e pôs-se a caminho. Léguas mais tarde deu pela falta da santa. Voltou e encontrou a imagem no mesmo lugar onde estava dormindo. Colocou-a de volta no alforje e partiu. Horas depois o viajante descobre que a Nossa Senhora não está mais com ele. Volta novamente, e lá está ela, no mesmo lugar. Não deu outra ele chegou à conclusão que a santa escolhera aquele lugar para ficar. Assim o francês construiu ali uma capela. Claro a notícia correu rápido, a lenda se instalou o povo passou a fazer peregrinações no local. Verdade ou não, o fato é que a história foi uma grande participante do crescimento da Penha. Já em 1682, documentos oficiais mencionam o bairro da Penha.
A portentosa Igreja Nova da Penha: lar da santa que, ainda que extraoficialmente,
foi aceita como a "Padroeira da Cidade de São Paulo".
Da colina ao vale
O bairro da Penha localiza-se entre os vales do Rio Tietê e o Rio Aricanduva. A colina da Penha ergue-se de forma marcante por estar no meio das regiões baixas típicas da várzea. Sua altitude chega a 800 metros acima do nível do mar. A Igreja de Nossa Senhora da Penha, localizada nessa colina, destaca-se na paisagem, sendo visível de longe. Erguida em 1668 como Capela de Nossa Senhora da Penha de França é o primeiro marco histórico deste bairro, originalmente um dos vários povoados afastados do primitivo núcleo urbano da cidade. Foi um ponto importante de pouso de viajantes e tropas entre os caminhos que ligavam São Paulo a Minas Gerais, através da planície do Vale do Paraíba.
Até o final do século 19 a população esteve praticamente concentrada na colina, o que manteve uma baixa densidade demográfica, não ultrapassando 3.000 habitantes. Era uma área basicamente rural, formada por diversas chácaras. No entorno da igreja prosperou um comércio de produtos religiosos bem como de outros itens necessários aos romeiros.
Entre as décadas de 1920 e 1930 teve início um processo de urbanização intensivo, com o loteamento das chácaras, fazendo com que a população se espalhasse até os limites da várzea do Tietê rumo a São Miguel Paulista e a Itaquera. A Estrada de São Miguel Paulista e a linha tronco da Central do Brasil, colaboraram para o avanço da ocupação urbana que se intensificou a partir da década de 1940, dando origem a diversos bairros como a Vila Esperança, Vila Matilde e Vila Guilhermina.
De costas para a Sé

São Paulo visto do alto: a colina da Penha ergue-se de forma marcante a 800 metros
acima do nível do mar
entre regiões típicas de várzea.
O bairro da Penha, o mais antigo de São Paulo ao lado de Santo Amaro, formou-se em torno da igreja e a religiosidade é uma característica presente ainda hoje entre a população local. A tradicional procissão e a festa da Natividade de Nossa Senhora, comemorada no dia 8 de setembro, ainda hoje reúnem milhares de pessoas.
Algumas décadas atrás, no entanto, eram capazes de atrair peregrinos de toda a Capital em busca de milagres. "Antigamente tínhamos um turismo religioso aqui, era como Aparecida do Norte", lembra Francisco Folco, um dos idealizadores e fundadores do Memorial Penha de França. "Nos dias de festa o comércio faturava mais que no Natal", emenda. A fama era tanta que Nossa Senhora da Penha, ainda que extra-oficialmente, foi aceita como a "Padroeira da Cidade de São Paulo".
Não é só o caráter religioso que foi preservado na Penha. O bairro foi pouco verticalizado, as ruas do centro histórico são estreitas e os vizinhos mantêm o velho hábito de conversar uns com os outros, costume cada vez mais raro na agitação de São Paulo. "A Penha mantém uma característica provinciana - no bom sentido - onde todo mundo se conhece", diz o jornalista Eugênio Cantero Sanchez, diretor da Gazeta Penhense e morador do bairro há mais de 40 anos.
O progresso e o crescimento desordenado de São Paulo levaram mais gente à Penha, especialmente nos anos 1970, e desta vez não apenas para homenagear Nossa Senhora, mas para morar. A área hoje administrada pela Subprefeitura inclui também os bairros de Vila Matilde, Artur Alvim e Cangaíba, totalizando 475 mil habitantes. Infelizmente, hoje, a situação econômica não é a mesma do passado, quando parte da elite paulistana mudou-se dos Campos Elíseos para a região em busca de ares mais saudáveis. A porcentagem da população em favelas é de 5,94% e o rendimento médio mensal dos chefes de família é de R$ 969 contra R$1.325 no município, de acordo com o último censo do IBGE.
![]() José Marcos, da Requinte: para melhor atender aos freqüentadores, já fizemos cinco reformas grandes na padaria. Agora, estam os fazendo a sexta. |
![]() Carlos da Costa, da Meireles: nosso forte é a panificação e as tortas de nossa fabricação, que fazem o maior sucesso entre os clientes |
Revitalização e lazer
Diante desse quadro, a Subprefeitura da Penha enfrenta diversos desafios. Dois dos mais importantes estão relacionados às áreas da saúde e educação. No início de 2007, a avaliação da subprefeitura era que 80% da demanda potencial por vagas em creches não teria condições de ser atendida. Há 19 Unidades Básicas de Saúde (UBS), além de ambulatórios de especialidades médicas, Centros de Apoio Psico-Social (Caps), centro odontológico e equipes do Programa Saúde da Família, que atendem a 13 mil famílias. Uma das reivindicações da comunidade é a construção de mais uma UBS em Cangaíba.
Entre os projetos da Subprefeitura estão obras de infraestrutura, como a construção de galerias pluviais, contenção do córrego Rincão, redes de acessibilidade para deficientes físicos e três muros de arrimo em áreas de risco. Uma outra preocupação da subprefeitura é com a conscientização da população para que não deposite lixo nas ruas nem nos córregos. Segundo assessores da Subprefeitura, é comum as equipes de limpeza passarem em ruas recolhendo entulho pela manhã e encontrarem, horas depois, mais entulho amontoado no mesmo lugar. Em apenas uma operação de limpeza realizada no Tiquatira foram retiradas 26 toneladas de lixo.
Buscando ampliar as opções de lazer do bairro, diversos projetos também estão em andamento na Penha. Um deles é o de revitalização do Parque Tiquatira, uma área verde linear de quase três quilômetros. No Dia do Meio Ambiente foram plantadas no local 500 mudas de árvores e a intenção da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente é chegar a 6 mil. Os poucos freqüentadores do Tiquatira nos dias de hoje usam o parque para caminhadas. Mas a intenção da Subprefeitura da Penha é transformá-lo num centro de lazer da Zona Leste.
Entre conversas e sabores
A Penha, é claro, é o "lar" de muitas panificadoras. Segundo registro do Memorial Penha de França, a primeira delas se instalou em 1930, na Av. Gabriela Mistral. Apesar do gigantismo, a tradição urbana do bairro ainda permite um contato muito próximo entre os moradores, que têm nas padarias um ponto de encontro dos mais habituais. Inaugurada em 1984, a Requinte Pães e Doces, da famosíssima Av. Amador Bueno da Veiga, é um deles. A bem da verdade, isso acontece desde 1953, quando a Requinte era a antiga Além Mar, do avô de seu atual proprietário, José Marcos dos Reis. Super apreciada pelos clientes graças ao seus deliciosos pães italianos, baguetes e uma série de outras receitas próprias, a panificadora é uma verdadeira "ONU", atendendo e servindo lugar de reunião para moradores do bairro de todas as classes. "E para garantir o conforto dos clientes e a qualidade do atendimento e de nossa produção já fizemos umas cinco reformas grandes. Atualmente, estam os fazendo mais uma, por meio da qual a casa vai ganhar um espaço de mais 200 metros quadrados, totalizando 600 metros quadrados", conta José Marcos.
Quem se preocupa com a qualidade do atendimento e da produção são, também, Ivete Novaes Borges e seu marido, José Borges, donos da Panificadora Jardim Lisboa, da Rua Dr. José do Amaral, uma travessa da Av. Imperador. Instalada há 12 anos no mesmo local, a padaria é "campeã" na comercialização de baguetes recheadas, entre elas as de muzzarela, provolone e calabresa, além de outras receitas, sempre aperfeiçoadas por meio do cumprimento de uma rotina muito especial: "Utilizamos bastante os serviços de cursos do Sindipanl Aipan-SP para treinamento de nossos colaboradores. Acreditamos que esse cuidado, tomado de maneira regular e constante, contribui significativamente para a continuarmos a ser uma das melhores referências da panificação da Penha", diz Ivete.
Outro exemplo de boa gestão de negócios e de ponto de encontro dos moradores, principalmente durante as manhãs na Penha, é a Loja de Conveniência Meireles, aberta já há seis anos na Rua Coronel Meireles. "Nosso forte é a panificação, além dos pães doces especiais e as tortas de nossa fabricação, que fazem o maior sucesso entre nossos clientes. Apesar de não servirmos almoço, a presença deles é constante durante todo o dia, quando vêm aqui para comprar nossos deliciosos pãezinhos e, ainda, saborear um gostoso cafezinho", afirma, com um sorriso, Carlos da Costa Monteiro, proprietário da casa.