O Bixiga te espera de braços abertos!

Uma das principais referências da boemia e da tradição cultural de São Paulo, a Bela Vista passou por mudanças urbanísticas e sociais, precisa de melhor cuidado por parte dos administradores da cidade, mas não perde sua alegria e seu charme muito próprios jamais.

 


A bela igreja de N. Sa. de Achiropita: cartão de visita do Bixiga.
"Domingo nóis fumo num samba no Bixiga / Na Rua Major, nó casa do Nicola / à mezza notte o'clock, saiu uma baita duma briga / Era só pizza que avoava, junto com as brajola ."

Assim, com esses versos bem humorados, escritos no idioma muito próprio do lugar, começa o "Samba do Bixiga", uma das composições do saudosíssimo Ado­niran Barbosa, com toda certeza, o mais "bexiguento" dos paulistanos, como são conhecidos de forma carinhosa, até hoje, os habitantes do bairro da Bela Vista.

As ruas do Bixiga - assim mesmo, com "i", devido à boa fala popular -, freqüentadas pelo autor do "Trem das Onze", de "Saudosa Ma/oca", do "Samba do Ernesto" e de centenas de outras canções, mudaram muito desde os bons tempos que ele zanzava por elas. Mas, apesar de tudo, a "alma" do Bixiga é algo que permanece intacto, num paradoxo tão curioso quanto o fato de que mesmo não sendo do bairro, Adoniran acabou se transformando em seu maior símbolo.

De acordo com os excelentes sites www.sampa.art.br e www.bixiga.com.br, os pri­meiros registros referentes ao Bixiga datam de 1559, e dão conta de uma grande fazenda chamada Sítio do Capão (capão é uma porção de mato isolado no meio do campo), cujo dono era o português Antônio Pinto. Décadas mais tarde o local passou a se chamar Chácara das Jabuticabeiras, devido ao grande número de árvores dessa fruta existente nas imediações. Já na segun­da década do século 18, o local pertencia a Antônio Bexiga. Ao que parece, o proprietário ganhou esse apelido porque fora vítima da varíola - bexiga era o nome popular da doença.


Alexandre, da 14 de Julho: o nosso forno é o mesmo da fundação

À época, a maioria dos estabelecidos no local era composta por imigrantes italianos, que não toparam a aventura ingrata de colher café no interior do estado e se mudaram para lá em busca das grandes oportunidades reservadas para todos aqueles que se dispusessem a suprir as carências de mão-de-obra da nascente metrópole de São Paulo por sapateiros, artesãos, padeiros e quitandeiros, entre outros. A partir de 1890, o bairro experimentou uma nova onda de crescimento com chegada de mais imigrantes: portugueses, espanhóis e ainda mais italianos. Isso sem contar os negros recémlibertados. Nem é preciso dizer que, no início, o lugar era uma verdadeira torre de Babei: ninguém entendia ninguém, mas acabaram se acostumando uns com os outros e a coexistência foi pacífica.

Bolo do Guiness

Desde aqueles tempos, um dos traços mais característicos da Bela Vista é a religiosidade. Sob esse aspecto, o marco do bairro, sem dúvida, é a igreja de Nossa Senhora de Achiropita. Inaugurada pelos devotos em 1925 na Rua 13 de Maio - ainda sem o sino maior, que só chegaria em 1929, doado por Maria Pidone e Maria Nazaro -, mas já ostentando no altar uma imagem da milagrosa santa, trazida para o Brasil pelo imigrante calabrês José Falcone.

Com missas hoje nem sempre lotadas, o ponto alto das atividades da paróquia é mesmo a comemoração do dia da santa, 15 de agosto. Mas, a grande festa de Nossa Senhora de Achiropita se estende tradicionalmente ao longo de todo aquele mês. Do lado de fora da igreja são colocadas barracas que oferecem comida típica (lingüiça calabresa, provolone, macarronada, fogazzas, polenta, fricazzas e vários doces regionais), enquanto em seu interior é feita a visitação à santa, novena, orações e preparação da procissão. As cantinas da região, bem como a montada no salão paroquial, com lugares disputadíssimos, recebem os visitantes com muita música e comidas típicas.

A alegria contagiante, que é marca registrada da Bela Vista, também se reflete na intensa vida cultural do bairro, que conta com diversas casas de espetáculo - como o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), o Teatro Imprensa, o Sérgio Cardoso e o Ruth Escobar. Além disso, a multiplicidade de tradições, práticas, costumes e símbolos locais criaram uma identidade muito própria para o Bixiga, que brota da culinária típica de seus inúmeros restaurantes e cantinas italianas, da atmosfera da quadra de sua campioníssima escola de samba Vai-Vai, da boemia e de tantas outras facetas que caracterizam a própria cidade de São Paulo.

Do ponto de vista da agitação cultural do bairro, impossível fazer um relato da Bela Vista sem mencionar o nome de Armando Pluglisi, o Armandinho do Bixiga (1931-1994), por toda a vida o promoter maior do bairro e fundador do Museu do Bixiga, que instalou numa casa do início do século 20 na Rua dos Ingleses - aliás, a mesma em que nasceu -, para recontar, por meio de seu acervo, um pouquinho da rica história do lugar.


Felipe, da São Domingos: prezamos pela amizade com nossos clientes

Armandinho também foi o idealizador de uma outra tradição super conhecida da Bela Vista: o bolo de 25 de janeiro, para comemorar o aniversário de São Paulo. Walter Taverna, "herdeiro" do emblemático personagem do lugar na missão de promover o bairro após a sua morte, relatou ao jornal o Estado de S. Paulo em janeiro deste ano que, quando pensou em fazer o bolo Armandinho queria bater um recorde. Assim, há 20 anos, montara o primeiro bolo com 30 toneladas de mistura e 1,5 quilômetro de comprimento. E deu certo: ele entrou para o Guiness como o maior bolo de aniversário do mundo. Só que a dificuldade de manter a "quilometragem" do doce ano após ano, exigiu aperfeiçoamentos, ajam brado de maneira criativa, no melhor jeitinho bexiguense: o bolo passaria a ter o tamanho em metros do número de velas apagadas pela cidade. O deste ano, por exemplo, teve 452 metros e pesou nada menos do que oito toneladas.

Buon giorno e buena notte

Hoje, apesar de não ter perdido o seu brilho, o Bixiga convive com alguns problemas de urbanização, que, na opinião dos moradores, poderiam ser resolvidos com investimentos nas áreas de segurança e da conservação do patrimônio histórico: urge que se reveja o tombamento de seu casaria e que as autoridades dêem uma atenção especial à assistência social aos menos favorecidos e cuide melhor de problemas relativamente mais simples de se solucionar, tais como melhorar a iluminação na rua.

Mas nem de longe esse conjunto de circunstâncias tira o prazer de andar por suas ruas. Assim, dar no bairro para conhecer suas padarias continua sendo um passeio da melhor qualidade. É quase impossível, por exemplo, passar perto de uma de suas tradicionais italianas e resistir ao cheirinho gostoso de pão recém­saído do forno à lenha invadindo o ar, e que, como naqueles antigos desenhos animados, ganha vida e nos "puxa", literalmente, para dentro do estabelecimento.

Uma das mais antigas delas é a Panificadora 14 de Julho, fundada em 1897 pela família Franciulli, na rua de mesmo nome. Indescritível o prazer que um paulistano sente ao entrar nela e deparar com a "decoração" nada convencional de queijos, lingüiças e sal ames pen­durados por toda a parte, enquanto pães italianos, recheados e os crustolli (massa frita com canela, anisete e erva doce, um das especialidades da casa) convivem em deliciosa harmonia com vasilhas contendo aliccela, patês e berinjelas grelhadas que aguçam o apetite. "Visitar a 14 de Julho é como entrar num túnel do tempo. Temos o cuidado de manter tudo aqui nos mesmo padrões originais quando meus avós abriram a pada­ria, naturalmente adequados às condições de higiene, nutrição e segurança dos novos tempos. Para você ter uma idéia do que é a nossa tradição, até o nosso forno é o mesmo desde a fundação", diz, sem disfarçar seu elogiável orgulho, Alexandre Ricardo Franciulli, herdeiro do negócio que, atualmente, além de atender aos clientes locais, tem, ainda, produção industrial para dis­tribuição em mercados de toda São Paulo.


José Valter, na Palma de Ouro: o nome é em
homenagem a Anselmo Duarte

Outra que merece ser visitada com freqüência por qualquer apaixonado pelas deliciosas receitas de pães rústicos é a Padaria São Domingos, também instalada em sua rua homônima, próxima ao viaduto que dá acesso ao complexo viário do Minhocão. Fundada em 1913 pelo bisavô de seus atuais proprietários, os irmãos Sílvio e Felipe Albanese. "Ele começou fazendo pão para a colônia italiana no cantinho da chácara onde, hoje, é o fundo da padaria. Mas logo foram conquistando os brasileiros e fregueses de todas as nacionalidades", lembra Sílvio. Na São Domingos, suas especialidades tradicionais, como os antepastos, a lingüiça calabresa e os pães recheados, são vendidas pelos animados balconistas, todos antigos com mais de 15 anos. "Prezamos pela qualidade, pelo bom atendimento e pelo contato de amizade com nossos clientes. Isso é o que faz com que a nossa padaria seja diferente e atraia muitos fregueses dos outros bairros", explica, por sua vez, Felipe Albanese.

Essa, aliás, é uma característica bastante comum das padarias italianas do Bixiga: cerca de 90% do público desses estabelecimentos são de outros bairros. Atenta à tradição, a clientela é fiel, e muitos não se importam de vir de suas casas, do outro lado da cidade, para comprar um delicioso filão ou o tradicional pão redondo italiano.

Bem ao gosto do cliente

Outra padaria super conhecida da Bela Vista, fora do circuito das italianas, é, ainda, a Panificadora Palma de Ouro, da Rua Japurá, fundada em 1960 e batizada com esse nome em homenagem ao ator, diretor, roteirista e produtor cinematográfico Anselmo Duarte, que conquistou o prêmio Palma de Ouro, em Cannes, pelo filme "O Pagador de Promessas", e que na época, casualmente, morava no prédio ao lado da padaria. Totalmente reformada e ambientada com arquitetura dos anos 60, a Palma oferece, hoje, uma infinidade de produtos e serviços. Além dos pães, lanches, doces e de seus apreciadíssimos petit fours, serve café da manhã, almoço, tem happy hour e, ainda, cinco diferentes tipos de sopa para consumo à noite. "Nosso público é bastante eclético. Atendemos pessoas de todas as classes sociais, que moram no bairro ou trabalham por perto, como os funcionários e os vereadores da Câmara Municipal, que fica aqui ao lado. E todos elogiam nosso atendimento primoroso", entatiza, felicíssimo, José Walter, o dono da casa.


Fernando, da Camões: amor ao bairro e à padaria, de pai pra filho.

Quem também tem vizinho ilustre no Bixiga é a Pani­ficadora Camões, localizada a poucos metros, na mes­ma calçada, da igreja de Nossa Senhora de Achiropita, na Rua 13 de Maio, fundada em 1964. Aos domingos ela faz a festa das pessoas que vêm para a missa na paróquia. A Camões é um verdadeiro exemplo de amor pelo bairro. "Meu pai costumava comprar, refor­mar, 'fazer o ponto' e vender padarias. Mas ele gostou tanto daqui que resolveu ficar com ela", conta seu atual proprietário, Fernando Vieira dos Santos. Outro aspecto interessantíssimo e muito elogiável foi a capacidade de a Camões se adaptar ao novo modelo de ocupação demográfica do bairro, antes tradicionalmente re­lacionada quase que exclusivamente à colônia italiana. "Hoje, temos uma grande população de nordestinos no bairro, cujas solicitações de alimentação, bastante específicas, demandaram uma adequação especial das opções presentes em nosso cardápio, tais como a inclusão de costela, torresmo e caldinho. Mas, é claro, não deixamos de oferecer pães italianos recheados e a nossa tradicional ciabatta, que continua sendo um verdadeiro sucesso entre os clientes", finaliza Fernando, com um grande sorriso no rosto.