Parte das padarias de SP anuncia que não vai mais vender cigarros por causa de assaltos e impostos

Por Carolina Giancola, G1 SP
02/04/2019 05h30

Cerca de 400 padarias da Grande São Paulo decidiram nesta segunda-feira (1º) parar de vender cigarros. A decisão tem dois motivos: a série de assaltos a esse tipo de comércio com foco nos pacotes de cigarro e a baixa margem de lucro com a venda do produto. Aproximadamente 6 mil padarias estão registradas na Região Metropolitana de São Paulo.

A padaria Vila Carmela, em Guarulhos, já foi assaltada 18 vezes, média de quase um assalto por ano desde a sua inauguração, há 20 anos. Em todas as vezes, os criminosos tinham um único foco: maços de cigarro.

"Os assaltantes já entram armados exigindo que a gente pegue do balcão as caixas de cigarro e entregue pra eles", diz o proprietário Hermínio Alonso Bernardo.

A outra padaria de Hermínio, que também fica em Guarulhos, foi assaltada quatro vezes nos últimos cinco anos.

"O cigarro é moeda de troca no mercado paralelo, é o produto que mais chama a atenção nas padarias. É a primeira coisa que roubam. Virou um problema crônico pra nós. Levam os cigarros e o dinheiro do caixa", contou o proprietário.

Impostos

De acordo com a Sampapão, grupo que integra o Sindicato dos Indústrias de Panificação de São Paulo e o Instituto do Desenvolvimento da Panificação e Confeitaria de São Paulo, em média, a margem bruta do lucro para comercialização dos cigarros das padarias é de 6,9%, mas os descontos sobre esse percentual são muitos.

Segundo o sindicato, 95% das padarias do estado estão sob o regime de tributação do Simples Nacional e pagam impostos sobre o faturamento entre 4,5% e 7,8%, dependendo da faixa de faturamento da empresa. Os comerciantes também reclamam das taxas que são descontadas pelas operadoras de cartões de crédito.

O valor de uma cartela de cigarro custa, em média, entre R$ 6 e R$ 10, dependendo da marca. As empresas de cartões cobram até 3% nas operações em crédito e 1,5% no débito de cada venda. 

"No fim, se uma padaria vende um maço de cigarro, ela fica com um lucro de R$ 0,50 ou R$ 0,70. A gente está pagando para vender o próprio cigarro", explica Antero Pereira, presidente do sindicato.

Essa decisão ganhou volume em adesões e os panificadores dizem que não voltarão atrás se não houver negociação por parte dos fabricantes de cigarros. "É necessário que eles [fabricantes] aumentem a margem de comercialização. As panificadoras estão tendo prejuízo com a venda do produto", explica Antero.

Os comerciantes querem uma margem de 12% de lucro junto às empresas que produzem cigarros. O cigarro está entre os produtos com mais imposto no país. A carga tributária atual é de cerca de 80%.

Na padaria Sines, em Interlagos, as prateleiras de cigarro estão vazias desde a manhã do último sábado (30). No cartaz, uma mensagem chama a atenção: "Não estamos vendendo mais cigarro por discordarmos da política de nosso fornecedor". O recado ganhou apoio dos clientes.

"A cada 10 clientes, sete elogiaram a iniciativa. Me surpreendeu. Agradamos muitos clientes", diz Flavio Leite, dono da padaria na Zona Sul. Entre 2017 e 2018, o comerciante sofreu um prejuízo de quase R$ 10 mil em um único assalto.

Governo estuda reduzir impostos

Na semana passada, o governo federal decidiu criar um grupo de trabalho para avaliar a redução de tributação de cigarros. Segundo a portaria que cria o grupo, assinada pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, a redução da tributação pode "diminuir o consumo de cigarros estrangeiros de baixa qualidade, o contrabando e os riscos à saúde dele decorrentes".